Quando o olhar muda de lugar
Talvez crescer seja exatamente isso: não apagar a criança, mas finalmente se tornar o adulto que ela precisava.
Juliana Pozzi - Através de Mim
2/4/20262 min ler


Recentemente comecei a assistir a uma série. Sem grandes motivos... apenas me veio uma vontade.
Nos primeiros episódios, a história mostrava algo forte: uma família que se desfez, uma criança levada embora pela mãe e um pai que fica para trás. Essa criança cresceu com muitos conflitos emocionais e de certa forma, viveu esperando. Esperando o pai voltar, esperando ser procurada, ser escolhida, ser aceita e amada. E enquanto eu assistia, algo dentro de mim se movia profundamente.
Curioso, porque essa não é a minha história literal. Meus pais não se separaram quando eu era criança e
meu pai nunca foi embora de casa. Ele esteve ali, presente. E ainda assim, eu sentia a dor daquela personagem como se fosse minha.
Foi aí que percebi. que, às vezes, o pai não precisa ir embora fisicamente para estar ausente emocionalmente. Talvez meu pai tenha sido isso: um presente mas ausente em alguns momentos. Com muita rigidez, com poucas palavras e com pouco espaço para o sentir. E talvez, sem perceber, eu tenha passado grande parte da minha vida tentando ser vista e reconhecida. Tentando corresponder, fazendo escolhas que não eram exatamente minhas, mas que buscavam certa aprovação, principalmente a dele.
Enquanto eu via aquela personagem crescer carregando a dor do abandono, algo em mim se fez consciente, essa ferida ainda existia. Não como uma expectativa consciente, mas como uma sensação antiga, silenciosa, guardada na criança que fui.
Então eu parei.
Respirei.
E me fiz algumas perguntas muito simples e muito honestas:
Juliana, com a consciência que você tem hoje, você ainda espera algo do seu pai?
Você ainda espera reconhecimento?
Você ainda espera ser salva?
Você ainda precisa da permissão dele para viver a sua verdade?
E a resposta veio clara: - não.
Eu sinto, mas eu não espero.
Não há mais expectativa.
Não há mais cobrança.
Não há mais espera.
Então ao invés de fugir da dor, eu me aproximei dela com amor. Olhei para essa criança dentro de mim — a pequena Juliana — e disse:
“Eu entendo você.
Entendo o quanto isso doeu.
E está tudo bem você ter se sentido assim.”
E então, com a consciência que eu tenho hoje, eu completei:
“Nós não precisamos ser salvas.
Nós não precisamos provar nada para ninguém.
Nós não precisamos mendigar amor.”
“Você é inteira.
Você sempre foi.”
“Eu estou aqui por você.
Eu caminho por você.
E o nosso caminho foi lindo.”
“Você pode soltar agora... pode deixar ir....”
“Eu te amo. E isso basta.”
Talvez crescer seja exatamente isso: não apagar a criança, mas finalmente se tornar o adulto que ela precisava.
Tudo na minha vida aconteceu da melhor forma e eu honro meu pai de todo meu coração. Ele foi incrível desempenhando aquele papel naquele momento. E quando isso acontece, algo profundo se organiza por dentro.
Não porque o passado mudou. Mas porque o lugar de onde olhamos para ele mudou.
Este espaço te atravessou de alguma forma?
Se você quiser, você pode apoiar essa jornada.
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